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17/1/2010 - Folha de Pernambuco – Brasil |
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Desastres ambientais: natureza x homem Ações das chuvas no Sul e Sudeste mostram como esse embate fica mais forte PRISCILA DOS SANTOS
Já no dia 1° de janeiro, a notícia dos deslizamentos de encostas em Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro, mobilizou o País. Foi de 53 o número de mortos no acidente. Também no primeiro dia de 2010, a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, foi destruída por enchentes. Quatro dias depois, em 5 do mesmo mês, uma ponte no município de Agudo, no Rio Grande do Sul, desaba e leva consigo cinco pessoas. Houve também casos em outros municípios desses e de outros estados. A força das chuvas provocaram esses desastres. “Ao contrário do Nordeste - onde as precipitações acontecem em período de climas mais amenos -, essa é a época de chuva nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Porque a atmosfera está mais quente e as frentes frias ocorrem com mais frequência. É um fenômeno normal, mas que veio com mais intensidade neste começo de ano”, explica a coordenadora do Laboratório de Meteorologia de Pernambuco (Lamepe), Francis Lacerda. Ainda segundo a meteorologista, esse vigor se deve a diversos fatores que contribuíram para esse fenômeno, como o El Niño e o aquecimento do Oceano Atlântico. “A questão é que está tudo acontecendo ao mesmo tempo, e isso não é comum”, continua. O El Niño é um fenômeno climático que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico e altera o padrão dos ventos. Para a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luci Hidalgo Nunes, por mais que as condições climáticas interfiram no excesso de chuvas das regiões Sudeste e Sul, elas não podem ser responsabilizadas isoladamente. “Esses eventos extremos, como chamamos, geralmente acontecem a cada quatro ou cinco anos. Eles fazem parte da dinâmica climática de qualquer local. Há momentos nos quais há excessos de chuva; em outros, falta”. O grande problema, alerta, é a ocupação desordenada de moradias, principalmente em áreas de risco. “Antes, os mais afetados eram as pessoas de baixa renda. Mas agora a classe média também está habitando em locais com solo instável, como nas encostas de Angra dos Reis, por exemplo. Nosso País não está estruturado para organizar esse ponto da habitação. É uma questão muito séria”, afirma Luci. De acordo com a professora, por mais abrangentes que sejam os domínios científicos e as tecnologias atuais, os desastres naturais continuam sendo recorrentes e assim serão se atitudes não forem tomadas. “Ao mesmo tempo em que dispomos da ciência, temos graves problemas ambientais porque esse conhecimento não está sendo aplicado”. A geógrafa Luci Hidalgo enfatiza que apontar a natureza como culpada faz parte de uma análise apressada e superficial. “Não é só um assunto climático, envolve ações políticas, sociais e cidadãs. É necessária a mudança no padrão de ocupações não somente das regiões Sudeste e Sul, mas de todo o Brasil. Não podemos ter um olhar estreito. É preciso que cada um, dentro de sua função, esteja empenhado em salvar vidas”.
Tendência do NE ainda é incerta Intensidades climáticas vistas hoje estão afetando também uma parte do Nordeste
Diante das intensas chuvas no Sul e Sudeste do País, a situação na Região Nordeste ainda é uma incógnita. “A tendência maior é de um período de estiagem, pois os efeitos aqui são contrários. Isso se observamos o Oceano Pacífico, mas o Atlântico está apontando para grandes precipitações. Estamos com um padrão atmosférico alterado”, declara a coordenadora do Lamepe, Francis Lacerda. As intensidades climáticas vistas hoje estão afetando também uma parte do Nordeste. “No Sertão, por exemplo, alguns municípios já ultrapassaram a média histórica pluviométrica do mês. Mas é comum que essas frentes frias cheguem à região, especialmente nos estados da Bahia, Piauí e Pernambuco. Já o litoral está apresentando um clima mais seco”, afirma a meteorologista. Para traçar um prognóstico oficial da tendência climática do Nordeste, será realizado um encontro na Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, nos próximas quarta e quinta-feiras, com diversos especialistas. “Nessa reunião técnica, haverá o lançamento de um indicativo oficial do nosso clima. Não é uma previsão, pois isso não existe. A antecipação de fenômenos naturais só pode ser realizada em curto prazo, em questão de dias. E o próprio nome já diz, previsão remete a probalidade, incertezas. Pois muitos fenômenos que acontecem fogem à bibliografia científica. Não há como controlar a natureza”, esclarece.
Faltam planos de ação
Não faz muito tempo, em novembro de 2008, o estado de Santa Catarina foi assolado por uma das maiores tragédias naturais no estado, segundo especialistas. As enxurradas e os deslizamentos atingiram cerca de 1,5 milhão de pessas e causaram 70 mortes. No ano anterior, a Organização das Nações Unidas (ONU) já tinha divulgado o Brasil como o 13° país afetado por desastres naturais, em especial pelas chuvas. O próprio Nordeste, em maio do ano passado, passou por enchentes. Os estados mais afetados foram Bahia, Maranhão e Piauí. Na época, a Bahia teve 134 municípios atingidos; no Maranhão, 52 decretaram situação de emergência; e no Piauí, cerca de 36 mil pessoas foram afetadas. E justamente são os meses de abril e maio que correspondem à época de chuvas na região. De acordo com a geógrafa e professora da Unicamp, Luci Hidalgo Nunes, mesmo a recorrência desses fatos parece ser insuficiente para alavancar ações políticas efetivas de habitação. “Não é possível evitar a ação da natureza, mas sim a ocupação desordenada de moradias. É preciso uma iniciativa de conscientização também com os habitantes. O ideal seria a proibição de construções em áreas de risco, mas acredito que seja difícil, por conta da situação econômica brasileira”. A própria geógrafa já atuou em ações comunitárias desse tipo. “Em Santos, no litoral do estado de São Paulo, integrei uma equipe para minimizar os riscos das ações da natureza. Para isso, contamos com um governo municipal participativo, que colocou em práticas medidas baseadas em nossas pesquisas, e com a colaboração dos moradores. Eles mesmos identificavam os problemas e buscavam meios de prevenção e de respeito à natureza. Foi uma ação bem sucedida”. |
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